
Neste artigo
Imagine um visitante usando leitor de tela para preencher o formulário de orçamento do seu site. Ele chega ao primeiro campo, sem rótulo nenhum, e não sabe o que digitar ali. Fecha a aba e liga para o concorrente. É esse tipo de barreira que a acessibilidade web resolve, e não é só sobre pessoa cega usando leitor de tela: envolve também contraste de cor, navegação sem mouse e vídeo com legenda.
O que é acessibilidade web, na prática
Acessibilidade web é o conjunto de práticas que garante que qualquer pessoa consiga usar um site, incluindo quem tem deficiência visual, auditiva, motora ou cognitiva. Na prática, aparece em detalhes que muita empresa nunca percebeu que faltavam: uma imagem sem texto alternativo é invisível para quem usa leitor de tela, um botão com contraste fraco fica difícil de enxergar para quem tem baixa visão, e um menu que só responde ao mouse trava por completo quem navega só pelo teclado, seja por deficiência motora ou por depender de leitor de tela.
Não é recurso de nicho. Une usabilidade (site fácil de usar para todo mundo, inclusive em conexão ruim ou tela pequena) com abertura de mercado: cliente que hoje esbarra numa barreira e desiste da compra sem avisar ninguém.
Virou obrigação legal: o que diz a Lei Brasileira de Inclusão
A Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência, Lei nº 13.146/2015, trata do tema no artigo 63: ‘É obrigatória a acessibilidade nos sítios da internet mantidos por empresas com sede ou representação comercial no País ou por órgãos de governo, para uso da pessoa com deficiência, garantindo-lhe acesso às informações disponíveis, conforme as melhores práticas e diretrizes de acessibilidade adotadas internacionalmente.’
Em outras palavras, a obrigação vale tanto para empresa privada com sede ou representação comercial no Brasil quanto para órgão de governo. O parágrafo primeiro do mesmo artigo soma outra exigência: o site precisa ter símbolo de acessibilidade em destaque. A lei não fecha uma norma técnica única, remete a ‘melhores práticas e diretrizes de acessibilidade adotadas internacionalmente’, que é exatamente onde entram a WCAG e o eMAG, tratados mais abaixo.
Este texto é informativo e não substitui orientação jurídica. Para avaliar o enquadramento do seu site na lei ou responder a uma notificação, consulte um advogado.
Quantas pessoas isso afeta no Brasil
Não é um público pequeno. Segundo o Censo 2022 do IBGE, o Brasil tinha 14,4 milhões de pessoas com deficiência, 7,3% da população de 2 anos ou mais. O levantamento investigou cinco domínios funcionais (enxergar, ouvir, andar ou subir degraus, coordenação motora fina e funções mentais) e considerou pessoa com deficiência quem relatou muita dificuldade ou incapacidade total em pelo menos um deles. Do total, 8,3 milhões eram mulheres e 6,1 milhões eram homens.
Um site sem acessibilidade não afasta só quem tem deficiência permanente. A mesma barreira atrapalha quem está com o braço engessado, quem usa o celular sob luz forte de rua, onde baixo contraste vira ilegível, ou quem teve uma conexão instável e perdeu o carregamento de um script.
Os critérios práticos da WCAG 2.2
A Web Content Accessibility Guidelines (WCAG), mantida pelo W3C, o consórcio internacional responsável pelos padrões técnicos da web, é a referência internacional citada pela própria Lei Brasileira de Inclusão. A versão mais recente, WCAG 2.2, organiza dezenas de critérios de sucesso em níveis A, AA e AAA. Para um site comercial, os critérios abaixo cobrem os problemas mais comuns.
| Critério WCAG 2.2 | Nível | O que exige |
|---|---|---|
| 1.1.1 Conteúdo não textual | A | Toda imagem com função informativa precisa de texto alternativo, para quem usa leitor de tela. |
| 1.4.3 Contraste (mínimo) | AA | Contraste de pelo menos 4,5:1 entre texto e fundo (3:1 para texto grande). |
| 2.1.1 Teclado | A | Toda função do site precisa funcionar só com teclado, sem depender do mouse. |
| 3.3.2 Rótulos ou instruções | A | Todo campo de formulário precisa de rótulo ou instrução clara sobre o que preencher. |
| 1.2.2 Legendas (pré-gravadas) | A | Vídeo com áudio sincronizado precisa de legenda. |
Esses cinco cobrem boa parte do que costuma faltar em site institucional: imagem decorativa sem alt, botão claro demais em fundo branco, menu que só abre com clique de mouse, campo de formulário sem indicar o que preencher e vídeo institucional sem legenda.
eMAG: a referência do governo federal
Para quem quer uma leitura mais próxima da realidade brasileira, o governo federal mantém o eMAG (Modelo de Acessibilidade em Governo Eletrônico), um conjunto de recomendações para que sítios e portais sigam um padrão de acessibilidade coerente com as necessidades do país e alinhado aos padrões internacionais, com base na própria WCAG. É de aplicação obrigatória em sítios e portais do governo brasileiro, mas serve como referência prática para qualquer site que queira aplicar a WCAG sem depender só do texto original em inglês.
Como testar se o seu site é acessível
Não precisa de ferramenta paga para o primeiro diagnóstico. O Chrome tem o Lighthouse embutido nas ferramentas do desenvolvedor (menu do navegador, mais ferramentas, ferramentas do desenvolvedor), uma ferramenta de código aberto que roda auditorias de acessibilidade direto na página, aponta os problemas encontrados e explica por que cada um importa. O relatório cobre pontos como rótulo em botão e link, ordem de navegação por teclado e contraste de cor, entre outras verificações.
O teste automatizado não substitui navegar pelo site só com a tecla Tab e, quando possível, testar com um leitor de tela de verdade. Mas já resolve o ponto de partida: alt de imagem faltando, contraste abaixo do mínimo e campo de formulário sem rótulo aparecem direto no relatório, sem precisar decorar a lista de critérios da WCAG.
Isso deveria entrar no checklist de lançamento de qualquer site, junto com performance e SEO técnico. Se o site já está no ar há tempo sem essa revisão, vale incluir a auditoria de acessibilidade na rotina de manutenção, do mesmo jeito que se revisa velocidade de carregamento e Core Web Vitals.
Onde a acessibilidade entra no projeto do site
O momento mais barato para tratar isso é no projeto, não depois de publicado. Um site institucional bem estruturado já nasce com hierarquia de título correta, contraste definido no design e formulário com rótulo, porque isso faz parte do código desde a primeira versão. Corrigir depois de pronto costuma custar mais: exige rever tema, plugin e, às vezes, refazer um trecho inteiro de layout.
Para quem contrata desenvolvimento sob medida, vale perguntar direto ao fornecedor se o site será entregue considerando os critérios da WCAG 2.2 nível AA, não só performance e design visual.
Site sem alt em imagem, sem contraste adequado ou com formulário sem rótulo já está fora do que a Lei Brasileira de Inclusão exige e fora do que a WCAG recomenda. A Codech desenvolve sites com acessibilidade tratada desde o projeto, não como retrabalho depois de pronto.
Perguntas frequentes
Todo site precisa seguir a Lei Brasileira de Inclusão?
O artigo 63 da Lei 13.146/2015 fala em empresas com sede ou representação comercial no Brasil e em órgãos de governo. Não define porte mínimo de empresa. Para saber se o seu caso específico está enquadrado ou como responder a uma notificação, o caminho correto é consultar um advogado.
Preciso seguir a WCAG inteira para o site ser considerado acessível?
A WCAG 2.2 tem dezenas de critérios em três níveis (A, AA e AAA). Cumprir os critérios de nível A e AA, como texto alternativo, contraste mínimo de 4,5:1, navegação por teclado e rótulo em formulário, já resolve a maior parte das barreiras comuns em site comercial.
Qual a diferença entre WCAG e eMAG?
A WCAG é o padrão internacional mantido pelo W3C. O eMAG é o modelo do governo federal brasileiro, baseado na WCAG, adaptado à realidade do país. O eMAG é obrigatório em sítios e portais do governo e serve como referência prática para qualquer site em português.
O Lighthouse do Chrome garante que meu site é 100% acessível?
Não. O Lighthouse audita automaticamente problemas comuns, como falta de texto alternativo, contraste baixo e rótulo ausente em formulário, mas não substitui testar a navegação só com teclado e, quando possível, com um leitor de tela real. Ele pode ser rodado tanto pelo DevTools do Chrome quanto pela linha de comando.
Quantas pessoas no Brasil são afetadas por falta de acessibilidade digital?
Segundo o Censo 2022 do IBGE, 14,4 milhões de pessoas, 7,3% da população de 2 anos ou mais, tinham alguma deficiência (visual, auditiva, motora ou mental) em nível de muita dificuldade ou incapacidade total em pelo menos um domínio avaliado.
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